PERGUNTE E RESPONDEREMOS 345 – fevereiro 1991

O Deus Feliz (1Tm 1,11)

Não é costume entre nós falar de "Deus feliz". Nem a S. Escritura enfatiza este atributo de Deus, pois só duas vezes o menciona (cf. 1Tm 1,11; 6,15: makários Theós).

Tal predicado era usual entre os escritores gregos Homero, Hesíodo e também nas obras do judeu helenista Filón de Alexandria (+44 d.C). Para os gregos, os deuses eram felizes (mákares theoí). . . Também os Imperadores divinizados se julgavam felizes pelo fato de obterem vitórias sobre os inimigos.

Ora São Paulo, em 1Tm, parece aludir a este fundo de cena helenístico. Sabe-se, aliás, que as epístolas pastorais estão cheias de alusões à cultura helenística pré-cristã, tentando implantar o Cristianismo dentro da linguagem e dos moldes dos homens anteriores a Cristo. Daí dizer São Paulo em 1Tm 6,15: "o bem-aventurado e único Soberano, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores". Deus é feliz, sim, mas não como as divindades dos pagãos, cuja bem-aventurança consistia em suplantar os adversários em guerras e torneios. O Deus, revelado por Jesus Cristo, é feliz porque é santo e perfeito. Nisto se encontra a fonte de toda bem-aventurança.

E, esta bem-aventurança, o Evangelho (que é Boa-Nova) quer comunicá-la aos homens. Por isto Jesus começa sua pregação, conforme Mt 5,3-12, proclamando as bem-aventuranças com eloqüência. . . Bem-aventuranças, porém, paradoxais, porque passam através da pobreza do coração, através da fome e sede de justiça, através da perseguição por causa do Cristo. . .

O paradoxo entende-se bem: se a felicidade decorre da santidade e da perfeição interior, é necessário que o homem se purifique de toda imperfeição e escória do pecado para consegui-la. É preciso morrer à velha criatura para que a nova se forme no íntimo do homem e o configure plenamente ao Cristo ressuscitado. Se não fossem o pecado e a desordem interior, não haveria que morrer; Deus fez o homem para a vida e não se compraz com a morte das suas criaturas (cf. Sb 1,14; 2,23s). Na medida em que a desordem dentro de nós cede à harmonia dos sentimentos, na medida em que vivemos o nosso Batismo, morrendo diariamente ao velho homem para permitir que o Cristo tome vulto em nós, vamos gozando da verdadeira felicidade (que nenhuma criatura pode arrebatar). Finalmente seremos plenamente bem-aventurados participando da bem-aventurança do próprio Deus, quando, terminada a peregrinação terrestre, nos encontrarmos com Ele na visão face-a-face do Além.

São estas as grandes verdades que norteiam o programa cristão de Quaresma e Páscoa: é preciso eliminar todo fator de desgraça (o pecado e a desordem) para podermos usufruir da Bem-aventurança do Único Soberano!

Dom Estêvão Bettencourt


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